terça-feira, 27 de junho de 2017

O enigma dos blogs

Sento-me a ler os blogs da minha esplanada e dou por mim a adivinhar desconhecidos.
Reconheço o ornitólogo pelo café frio que trina, o senhor da agência funerária pelos textos monocórdicos, o contabilista pelos posts curtos, o bancário pela prosa preocupada e o banqueiro pelos temas gaiteiros. Os professores são ainda mais fáceis de distinguir: no seu estendal cabem alunos e avaliações e pouco mais. Os informáticos adoptam o casual friday e o acordo ortográfico abreviado. Os cientistas calçam um sapato castanho e outro roxo. Os arquitetos têm um blog polido e os médicos, um limpinho. Os engenheiros costumam comentar-se, tratando-se mutuamente por "sr. eng.", apesar de se conhecerem desde o bibe amarelo. Os srs. drs. escolhem palavras caras sobre as últimas leituras e os políticos beijam bochechas "à" anos.

 Porém, nesta esplanada, o que me atrai não é tirar a pinta pela carga de quem escreve. O que verdadeiramente me agrada é adivinhar almas...
O que haverá na gaveta da mesa de cabeceira da mãe extremosa? O que faz miss b. à noite? Quanto é preciso provocar a dama para sentir a sua garra? Com que sonha a b.? O que dirá o papelito quase desfeito que madame guarda no seu bloco de notas? Porque precisará o s. de capas falsas para o livro que lê no metro? O que levará y. a desperdiçar desejos? A aprumada muda os lençóis após uma noite? O k. guarda os bilhetes depois de os alardear? O que levou a doce a entrar no autocarro errado, esta manhã? A senhorita está nisto para o engate ou pelas receitas caseiras? O que tira o sono à dona do gato? A que saberá o beijo da pirata?

quinta-feira, 22 de junho de 2017

terça-feira, 20 de junho de 2017

De que cor é o teu céu?

Cruzamo-nos e detemo-nos. Sorrimos. Cumprimentamo-nos com palavras banais. Trocamos dois dedos de conversa do quotidiano. Despedimo-nos com beijos. Olhamos para trás a acenar. Há anos que não a via.
Eu vou para os Anjos. Ela, não sei.

Um golo de café

-"É impossível ir por aí! Sem caminhos abertos, o corpo não passa."
Então, as mãos fizeram-se sonho e o homem voou.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sinopse




Desintoxicar com leite

Não sei se o centro de Portugal é o seu coração. Sei que está ferido o centro de Portugal. Sei que está ferido o meu coração. E dói-me - provinciano me confesso - com a devastação que as desgraças longínquas não igualam.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Isto ainda vai acabar bem

Importa-me pouco se a viagem acaba ou não, se recomeça ou se se repete. Haverá sempre mais para ver, e isso basta-me. Sou dos que não quer viver muito, apenas o suficiente. Dizerem-me que a morte é certa é como eu dizer à minha filha que Hogwarts não existe. Só pessoas que exclamam "olha, um urso polar albino" quando vêem um urso preto, dizem coisas daquelas. É gente que nem sonha que até a música se solta de si em busca do sol.

Tenho a certeza de que, quando chegar a minha hora, saberei ir à minha vida!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Toda a gente sabe que nos blogs não há amigos*

Nos blogs, limitamo-nos a inventar de espanto palavras de maresia, sem cobrar das horas gastas. Nos blogs, limito-me a mentir com (quase) todos os segundos que o tempo tem.
No blog, transgrido em confissões que nunca fiz e persisto no tempo que me falta. No blog, chego a dançar um tango intenso, no convés de um barco que não navego.
Com o blog, partilho palavras comuns e insuspeitas, conheço escritas admiráveis e arrepio-me com novos tons.
Pelos blogs, antecipo autores distintos e absolutos da catarse que vale a pena. Pelos blogs dos meus, chego a antecipar a entrada do dia num novo post.
Os blogs apreciam a distância indelével da corporalidade e mantêm a presença viva do pensamento.
Neste blog, perdi o conto às tardes convividas e às histórias instintivamente tecladas. Senti a cumplicidade do outro lado da distância. Recolhi o que me sobra em pensamentos. Abriguei-me da nostalgia do que já não é e do que me engano.
Este blog dá-me conta de outros cantos, sustenta-se em motes diferentes, tutela estradas, ignora vassalagens prestimosas, aplaude sensibilidades benignas.
Houvesse alma, como há talento, e talvez - nisto dos blogs - existíssemos amigos.

Semântica ao jantar

Ela: - "Tenho mesmo de comer a maçã toda? Sabe a azedo..."
Ele: - "Vá lá, toda não... Sabe mesmo a azeite!"

terça-feira, 13 de junho de 2017

Outro Ente também está prontíssimo para um pouco de blogs à moda antiga



Foi ontem ainda agora

Ontem, não saltou do carro assim que lhe abri a porta. Ontem, não tentou lamber-me as mãos com o focinho-sempre-húmido quando lhe falei. Ontem, peguei-lhe ao colo e pesou-me como nunca. Ainda agora, vivíamos jornadas de léguas e lebres, de entendimentos e silêncios, de festas e  quietude. Eu também não voltei a caçar.
Ontem, pediram-me mais do que patrocínios. Culpo a nostalgia dos tempos de aeromodelismo. Deixei-me envolver pelos doze que me calharam e acolhi-os com o temor de não ser. Foi um ano de sentimento do pouco tempo.
Ontem, o meu filho deu uma tesourada nas pestanas e a minha filha passou a fechar a porta do quarto. Ainda agora, precisavam que lhes cantasse a música do ursinho. Ah, esta santa saudade, reverenciada pela centelha eterna do sonho que ouso acreditar infinito.
Ontem, problemas de circunstância não pareciam irrisórios e a neblina das horas cinzentas desaparecia sem deixar marcas. Ainda agora, não acredito grande coisa no que - dizem - acabou por dar certo.
Ontem, não adiei no tempo o teu sorriso, mesmo sabendo que a alegria é breve e as manhãs submersas.
Ontem, encostaste-te a mim e fechaste os olhos, como pertence a uma mulher que quer ser beijada.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Porque o amor não tem chulé



Psiquê, imortalizada por Eros; Luísa, a quem Basílio aportou uma existência superiormente interessante; Alcíone, eterna em Ceix; Dulcineia, que Dom Quixote tornou norte dos caminhos e estrela da ventura; Andrómeda, salva por Perseu; Susana e Fígaro, inesquecíveis a uma só voz; Júlia, resgatada por Winston de 1984; Jacinto, celebrado pelo canto de Apolo; Ares e Afrodite, unos em Harmonia; Eurícide, por quem Orfeu chorou lágrimas de ferro; Papageno e sua Papagena; Ártemis, acompanhada por Órion; Filémon e Baucis, que permanecem unidos pelos troncos;  Aurora, beijada por Phillip; Branca de Neve, ressuscitada pelo seu príncipe encantado.

Em cima: O beijo, de Rodin, onde se comprova, como se a vida não nos ensinasse quanto baste, que o amor até lava os pés.

(À consideração da espirituosa Cuca, a Pirata.)


Banda sonora para hoje

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A imanência de Éris

Se pudesse bastar-me com "a mais bela" da festa de Peleu e Tétis, como Páris; se a minha dúvida não fosse inabalável e persistente; se a demanda fosse menos exótica e genuína; se não  me perdesse em excessos de vendaval e em volubilidades da vida; se acreditasse em absolutos inviáveis, em perplexidades prolixas, em distâncias da certeza; se calasse as desconfianças extravagantes, até de mim...
Entretanto, basto-me com pão com queijo; amazonas deslumbrantes, porvires de graça; temperos do frio; terras férteis semeadas, como dantes; noites imensas; génios sem ansiedades; memórias diletantes e coleções de variados amores.

Para sempre

A necessidade incessante de te buscar que me pulsa nas veias e alenta será, talvez, a obra maior do sentir perenidade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Pim!

Há dias, acedi a partilhar a conta do Spotify com a minha filha. Na altura, pareceu-me uma solução de compromisso vencedora, que satisfazia os interesses de ambas as partes sem beliscar as respetivas convicções. Uma espécie de win-win situation que a deixou contente e me deixou descansado. Tudo corria bem...

Acaba de me aparecer uma notificação "just for you" com a sugestão Taylor Swift. 
Como diria a minha filha: morri.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Hinos e hossanas

Neste blog, continuará a conversar-se sobre o sopro de um beijo, sobre a música, sobre os golos e os milagres e as damas de allure et charme. Sobre os sonhos fabulosos e o gosto de os viver, a fantasia e o labor, a poesia e o improviso, a caricatura e a evidência, a boa disposição e os ovos escalfados em molho de tomate, cardápios de sedução para paradigmas possíveis. Sobre a mulher, a vida, as chuvas, os anos. Sobre os desejos inconfessados, as fragilidades da vida, as paisagens da existência. E sobre a criação de frísios, os heróis e seus galopes, o correr da pluma, a sucessão das datas, as diferenças, as desistências. Sobre os valores que perduram. Sobre a inalienável dignidade. Sobre a ironia, a ternura e a incessante busca de azimutes. Sobre os cometimentos e os merecimentos e o humanismo e a comunhão no urbanismo. Sobre o tinto velho com bom queijo. Sobre o apego bacoco a números de telemóvel que não atendem mais...

Continuamo-nos

Um jeito de silêncio, bailado de mar e terra. Fins de tarde passeados na alameda à sombra das árvores altas. O badalar quinhentista das horas in illo tempore. O instante breve e fugaz em que o sonho persiste e me integra, em que te sentas a meu lado e te inventas e me invades. Coisas de nada. Utopia. Deslumbramentos. Tangos extravagantes. Naufrágios ao nível de um Conde Andeiro. Basófias sem censura...

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Autoanálise

Apercebes-te de que passaste a preferir as V7... e inquietas-te sobre a ditadura do proletariado.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu escrevo na água todos os dias

Não é que não me apeteça escrever. Pelo contrário, apetece-me dizer: Rocambole, Rasputin, Robin dos Bosques. Reinos da utopia, castelos da Baviera, velhas pedras do passado, ameias, Bacantes e tochas ardentes. Cantos gregorianos, cenários de luxúria, Vernissages, baralhos dos dias, Casanova. Roissy, Soho, tresloucado, Ilha dos Amores, Central Station.
Quero falar-te de coisas de nada. Não me importa que as nossas vidas não venham na história. Só exijo que acredites nos sonhos que não morrem neste mundo.

"Olho para o papel branco (afinal um tudo-nada pardacento) sem a angústia de que falava Gauguin (ou será Van Gogh?) ao ver-se frente da tela, mas com apreensão, apesar de tudo, Que vou eu escrever – eu, a quem nada neste mundo obriga a escrever? Eu, antecipadamente sabedor da inutilidade das linhas que neste momento ainda não redigi..." Augusto Abelaira, Bolor

* "Escrever na água" era o nome da crónica de Augusto Abelaira.